
Sexta-feira, 01/08/2008, conforme combinado com os amigos de nosso pelotão, marcamos de nos encontrar no Restaurante Schuster lá em Santa Cruz do Sul, entre 10:30 e 11:00 AM. Quando estava quase chegando recebi uma ligação do Vitor informando que o PC estava quase fechando, e eu estava atrasado. Claro, uma brincadeira com referência as provas Audax, pois já passava das 11:00 hrs e eu ainda não havia chegado. Em seguida estávamos todos batendo papo no Restaurante Centenário. A Esther apareceu por lá e almoçou com a gente.
A tarde visitamos a Faccin Bicicletas, compramos alguns equipamentos e logo nos dirigimos ao Hotel Antonios para descansar. A noite rolou mais uma janta antes dos últimos preparativos para a largada, marcada para a 00:00 do sábado (02/08). Eram mais ou menos 18:00 hrs da sexta-feira quando começou a chover forte, muita chuva mesmo ! Ficamos apreensivos, e logo fomos alterando nossos planos para a prova, que agora incluía muita chuva pela frente. Parecia uma repetição do Audax 600 kms de Porto Alegre em 2006.
Hora do briefing, aproximadamente as 23:00 hrs da sexta, e o Faccin colocou o horário da largada em votação, ou seja, se a maioria do grupo concordasse a gente largaria com chuva mesmo, caso contrário largaríamos então as 06:00 AM do sábado (02/08). Por unanimidade a largada foi então transferida para as 06:00 AM do sábado, o que provaria ser uma decisão acertada.
As 05:00 AM do sábado nos encontramos para o café da manhã, a chuva já havia cessado mas o tempo continuava bastante húmido. Após o café finalmente havia chegado o grande momento da largada. Tivemos nossa única baixa, pois a Esther não apareceu para a largada. As 06:10 AM partimos para estrada, para aquela que seria a mais sensacional prova Audax que já fiz até então. Minha 21a prova, o terceiro brevet de 600 kms.
O asfalto estava banhado pela chuva, com muitas poças d'água, porém o ânimo de todos estava elevadíssimo. Algumas voltas dentro da cidade para completar a quilometragem e logo depois partimos em direção a Candelária. O ritmo começou mais pausado, como sempre deve ser um brevet mais longo como este, e todos pedalamos juntos até o PA de Candelária. Uma pequena pausa e logo partimos novamente para a estrada. Nosso destino agora era Novo Cabrais. Passamos ao lado de lindas montanhas, o que sempre torna a pedalada ainda mais agradável. Logo estávamos na estrada para Cachoeira do Sul, agora por uma estrada mais comum, sem aquelas lindas montanhas do percurso anterior. O vento começou a bater lateralmente, o pelotão ficou mais esticado, porém a gente conseguia visualizar os companheiros que estavam a frente ou na retaguarda. Chegamos próximo ao meio dia no Restaurante Papagaio, na BR 290. Aqui foi nossa primeira pausa para uma alimentação mais adequada, o almoço. É incrível como a grande maioria come muito nestas paradas, e como é importante "perder" tempo com o reabastecimento da "máquina", e comer corretamente faz parte da estratégia, ou seja, nada de churrasco ou comidas mais pesadas. As massas sempre são as mais visadas por todos.
Após o almoço partimos então para mais um trecho, agora pela BR 290, que nos levaria então até a cidade de Pantano Grande. Em um determinado trecho apanhamos um asfalto simplesmente fora de série, e aproveitamos para "brincar" um pouco com a velocidade. Algumas fugas, obviamente neutralizadas, porém tudo como uma grande brincadeira, pois ninguém estava a fim de quebrar um pelotão tão unido como o nosso. Se alguém empreendia alguma fuga, logo baixava o ritmo para ser alcançado pelos demais. Ao chegar em Pantano Grande nos reabastecemos de Gatorade, água, etc...
Partimos de Pantano Grande, agora nosso trajeto nos levaria de volta a Santa Cruz do Sul passando antes por Rio Pardo. Uma estrada cheia de sobe e desce, o que seria uma constante nesta prova. O Paulo estava com problemas no pneu traseiro, e perdeu bastante tempo tendo que parar constantemente para encher o mesmo. Chegamos de tarde a Sta.Cruz, e a fome já estava apertando novamente. Decidimos aguardar a chegada do Paulo, e aproveitamos para tomar um banho, para fazer mais uma sessão de comilança, desta vez em um café colonial. O Paulo chegou e também reabasteceu a "máquina" antes de partimos para o percurso noturno da prova. Um trecho de mais ou menos 180 kms.
A subida que fica logo após o trevo Vida Nova é um perfeito desafio para qualquer ciclista de longas distâncias. Se você baixar muito o ritmo vai "perder" muito tempo, se aumentar o ritmo vai levar um banho de suor. E tudo o que a gente não quer é ficar molhado logo no início do percurso noturno da prova. É melhor tentar achar um meio termo, e o que eu faço é começar a subida com o quebra vento aberto, no início é meio frio, mas logo o calor da escalada toma conta e a temperatura corporal volta ao normal, e o suor não fica tão abundante. Depois da escalada tem a descida das 7 curvas, onde a velocidade aumenta significativamente, e com ela os perigos aumentam também. Aliás, nestas questões de subidas e descidas é muito curioso como a gente fica torcendo para não apanhar descidas longas quando a temperatura está um pouco baixa, e olha que não estávamos com tanto frio assim, porém estas descidas gelam um pouquinho !
A noite já havia caído, e nós adentramos o percurso pela RS-405 em direção ao Pesque Pague Panorama. O Faccin já havia reservado, com antecedência, um carregado prato de massa para cada um de nós então tocamos pedal com o pensamento na comida. A estrada está bastante esburacada, principalmente no trajeto entre Passo do Sobrado e Vale Verde. Por falar em Passo do Sobrado, logo depois que a gente passa pelo acesso da cidade tem aquela já famosa subidinha, onde a maioria da galera preferiu aliviar um pouco o giro e subir moderadamente. Sem nenhum peso na consciência eu coloquei a primeira marcha na Anita (para quem não sabe, este é o nome da minha Pinarello) e tocamos pedal morro acima. Do outro lado do morro tem um descidão, mas a estrada está ruim e a noite está escura, então é importante abrir bem os olhos e redobrar a atenção. Depois de passar por Vale Verde a estrada melhora muito, e segue num sobe e desce constante onde é possível aproveitar bem tanto as subidas quanto as descidas. Alternamos alguns momentos de apenas pedal, sem papo, e outros de muita conversa, o Graxa contando suas histórias engraçadas, o Faccin nos falando da inigualável experiência de pedalar 1200 kms na mais famosa prova Audax, a Paris-Brest-Paris, o Trevisan comentando seus planos para os 1200 kms nos Estados Unidos... e assim vamos girando nossas magrelas rumo ao Pesque e Pague Panorama.
Finalmente chegamos ao pesque e pague, e os proprietários do local nos serviram uma massa caseira simplesmente fantástica. Comemos muita massa, com pão caseiro um litrão de refrigerante. Deixamos encomendados alguns sanduiches, para apanhar-mos no retorno junto com mais um litrão de refrigerante. Alguns alongamentos e partimos para a estrada novamente. Nosso destino agora era o Posto ABS, em General Câmara. Ao partir do pesque e pague temos uma descida forte, e como estávamos com o corpo frio, voltamos a nos queixar um pouco das descidas. Continuamos girando, passamos por Santo Amaro e dê-lhe pedal até alcançar-mos finalmente o PC3 no Posto Abs em General Câmara. Uma pausa para um café forte, reabastecimento de água e logo partimos para o retorno a Sta.Cruz. Antes de Santo Amaro encontramos com o Paulo e o Dacivaldo, que estavam pedalando juntos. O Dacivaldo havia furado dois pneus, e na madrugada é sempre bom ter um companheiro de prova para dar aquele apoio moral. Batemos um papo rápido e logo continuamos o giro.
Chegamos ao Pesque e Pague Panorama na madrugada, os sanduiches que havíamos encomendado estavam nos aguardando. Comemos nossos lanches e saímos para a estrada. Este foi o momento mais engraçado da prova, pois pensávamos que o Paulo e o Dacivaldo podiam estar por perto, já retornando do PC3. Estávamos completamente sozinhos na estrada, então o Graxa largou a voz: DACIVALDOOOOOOOOOO !!!!! O grito ecoou pelos campos da região, e a nossa gargalhada também, com certeza !!!
Até que a madrugada não estava fria, o pedal passou a fluir em uma cadência muito legal, então o Vitor descolou do pelotão e abriu alguns minutos a frente, em seguida eu parti também e alcancei ele na subida forte logo após Vale Verde. A subidinha é realmente forte, porém do outro lado temos uma descida de porte semelhante, então é pedalar e esquecer o esforço. Descemos do outro lado do morro e logo chegamos ao trevo de acesso a Passo do Sobrado. Continuamos girando juntos, chegando logo ao Restaurante Schuster. Partimos para a escalada das famosas sete curvas e dê-lhe pedal, descida em direção ao trevo Vida Nova, entramos na cidade e logo chegamos ao Hotel Antonio's novamente, era 04:31 AM (03/08 - domingo) portanto havíamos rodado 410 kms em pouco mais do que 22 horas. Estava concluída a segunda parte da prova, faltando agora apenas os últimos 200 kms.
Segundo nossos planos para a prova, havia chegado o momento do maior intervalo, inclusive com pausa para algumas horas de sono. Combinamos de nos encontrar-mos no café do hotel as 08:30 hrs, com previsão de relargada para as 09:00 hrs.
As 09:15 partimos todos juntos para o derradeiro trecho, psicológicamente este é o melhor momento, porém fisicamente não. Eu consegui dormir durante 02:30 hrs, após ter tomado um excelente banho que sempre revigora um pouco, mas nunca é o suficiente, continuamos com um pouco de sono e cansaço. A velha escalada após o trevo Vida Nova estava lá novamente, e não tinha jeito a não ser encarar e subir. Dê-lhe pedal, força, respiração, olhar para baixo focando mais o chão, afinal ninguém quer olhar para o alto e ver o quanto ainda falta de escalada. Depois da subida tem a descida das 7 curvas, e como já é dia claro então aproveitamos para deixar as magrelas despencarem estrada abaixo !!!
Passamos o Schuster, o pedágio, logo alcançamos o trevo de Venâncio Aires onde entramos a esquerda em direção a Mato Leitão. Até Venâncio Aires a galera estava mais no estilo passeio, porém logo começam algumas subidinhas e a turma se entusiasma rapidinho, forçando um pouco os pedais e esticando mais o pelotão.
Em Lajeado o Trevisan chegou em um posto de combustíveis para comprar mais água, eu e o Vitor aproveitamos para tirar água do organismo, mijar mesmo, enquanto o restante do pelotão chegava. Confesso que tenho uma certa bronca do trecho entre Lajeado e Muçum, pois nunca consigo um bom rendimento neste trajeto. Fui girando "despacito", mais giro do que força, e assim fui pedalando junto com a galera até finalmente chegar-mos ao Hotel Hengu, já em Encantado. Era o último PC antes da chegada. Parada mais longa para o almoço. Por falar em almoço, foi mais uma daquelas comilanças quase sem medidas, só cuidando para não comer nada pesado para a digestão. Rolou muita sopa de capeletti, arroz, galeto, e um café forte no final para "acimentar" tudo. O Faccin e o Dacivaldo aproveitaram para tirar um sono rápido, coisa de minutos. Logo partimos para a última parte de nossa jornada, o trecho entre Encantado e Santa Cruz do Sul. Previamente combinamos de nos encontrar no Restaurante Casa Cheia, em Venâncio Aires, para um último lanche antes de encarar a subida das 7 curvas pela última vez nesta prova.
Logo que partimos o pelotão começou a esticar novamente, comigo estavam o Trevisan, o Graxa e o Glademir. Comentei com a galera sobre abrir-mos mais uma sessão de bate papo com a intenção de fazer as horas/quilometragem passarem mais rápido. Foi muito legal, o Trevisan e o Graxa emparelharam as magrelas, eu e o Glademir também e rolou muito papo. Conversamos muito sobre cicloturismo, acabei conhecendo mais um cicloturista convicto, o Glademir. Ele me falou das várias cicloviagens que já fez, inclusive pela Argentina, por estradas que ainda não tive o privilégio de pedalar. É sempre muito gratificante conhecer um cicloturista de fato, as suas experiências, a vivência na estrada, o contato com outras culturas... Foi sensacional saber que eu tinha um companheiro cicloturista "brevetando" os 600 kms, quem sabe algum dia possamos conquistar alguns caminhos por este mundão velho de Deus !!!
Passamos por Lajeado em seguida alcançando o trevo de acesso a Cruzeiro do Sul, uma surpresa ! O pneu traseiro da Anita furou, porém trocamos rapidamente a câmara e logo partimos novamente. Agora já estávamos mais concentrados na prova novamente, alcançando o posto do pedágio rapidamente, local em que o Faccin aproveitou para mais uma das suas muitas esvaziadas do "buffer intestinal" - eheheheheh !!!
Mais estrada, sobe e desce constante, a descida grande na chegada a Venâncio Aires chegando em seguida ao Restaurante Casa Cheia. Conforme combinado paramos para um último lanche. Para variar eu estava morrendo de fome novamente, então rolou um pastel de carne, um sonho recheado com doce de leite, uma torrada só de queijo e um refrigerante 600 ml, só para aliviar a fome e preparar as pernas para a última subida. Partimos com a tarde indo embora, portanto hora de acender as sinaleiras/faróis, colocar os coletes reflexivos e aguçar a visão. Para variar um caminhão passou tirando tinta d'agente, e o Graxa não deixou por menos interpelando o caminhoneiro no pedágio de Venâncio Aires. Quase rola uma confusão, logo sanada ! Cá entre nós, eu só tinha a mente focada na chegada, nada mais me importava, nada mais me interessava, a chegada neste ponto da prova é o grande prêmio, você não consegue pensar em mais nada, não consegue querer mais nada !!!
Passamos o Restaurante Schuster e alguns quilômetros depois é a nossa última escalada das sete curvas nesta prova. Eu pensei, o pelotão vai aliviar o giro e subir ao estilo passeio, e não é que todos estavam adrenalizados acabando por "torcer o cabo" morro acima em um ritmo sensacional. Logo alcançamos o Dacivaldo que não havia parado no Restaurante Casa Cheia e continuamos girando passando pelo posto da Policia Rodoviária, trevo Fritz e Frida chegando no cume todos contentes. Um descidão rumo ao trevo Vida Nova, onde a galera não quis nem saber e largou os freios, mesmo de noite, entramos na cidade e aí a emoção é que toma conta de todos.
Domingo, dia 03/08/2008, 19:45 hrs, estávamos concluindo mais um brevet de 600 kms. A gente fica sem palavras, ainda mais quando uma prova com quase 38 horas tem todas as nuances que esta prova teve, destacando-se dentre todos o companheirismo. Sem dúvida alguma, opinião unânime de todos, foi o Audax mais sensacional que já realizamos, realmente inesquecível !!!
Para concluir este relato, expresso aqui minha humilde visão sobre esta prova:
Não vencemos nossos companheiros, não era este nosso objetivo
Não sobrepujamos nenhum atleta, não era esta a nossa meta
Não conquistamos nenhuma montanha, não foi este o nosso foco
Vencemos sim a ganância humana pela vitrine da conquista
Sobrepujamos sim o desejo oculto de querer superar o próximo
Conquistamos muito mais do que um simples brevet
Conquistamos amigos irmãos !!!
Isaac Silveira Ibaldo