sexta-feira, 6 de março de 2009

O adeus de uma guerreira !



Já dizia o velho sábio que de nada vale o peito cheio de medalhas se o corpo não tiver muitas cicatrizes.

Não fechei um ano de parceria com minha querida Anita, porém os poucos meses que convivemos foram realmente intensos. Lembro como se fosse hoje quando trouxe ela para casa e depois de uma pequena volta no quarteirão eu retornei com lágrimas nos olhos, simplesmente havia descoberto a bike mais sensacional de pedalar. Foi uma harmonia instantânea, uma paixão fulminante daquelas com perfil profícuo para se tornar eterna.

Até então nunca havia pedalado sériamente uma bicicleta de aço, e quando comecei com a Anita finalmente pude entender porque os maiores campeões da história do ciclismo jamais abriram mão de um bom quadro de aço. Só para citar um: Eddy Merckx. É claro que os modernos materiais nos apresentam nuances nunca dantes vistos, com leveza, rigidez, fluidez, que parecem ofuscar o velho e bom aço.  Eu mesmo comecei no ciclismo com mountain bikes em alumínio, e quando parti para as speeds fui logo para as Madones (Trek). Atualmente tenho uma Madone 5.2 Pro 2008.

Quando a Anita chegou, desbancou todo o mundo, especialmente minha Madone que pesa 7,1 kgs ficou lá no cantinho toda encapada, pois descobri que um bom quadro de aço pode dar até mais retorno do que os modernos quadros atuais. Quer um exemplo ? Que tal pedalar uma Madone de 7.1 kgs com um vento lateral de 20 kms/h ? Isto é quase impossível, pois o vento fará com que ela dance na pista. No inicio você estranha um pouco, sente o peso, procura sempre combinar as melhores relações de marcha, porém rápidamente você já consegue fazer a leitura "relação x terreno" e o pedal flui então com fantástica leveza.

Foram algumas provas Audax no ano passado (2008) que culminaram com a série completa (até os 600 kms) com o Audax 600 de Santa Cruz do Sul que ficou internamente conhecido como "pelotão Dacivaldo". Para a maioria dos 8 participantes deste pelotão simplesmente a melhor prova Audax já realizada. Estive em Curitiba fazendo o Audax 400 de lá, prova sensacional com bastante sobe e desce onde eu e meu amigo Paulo Endres completamos os 400 kms em 24 horas. Enfim, foram várias provas de longas distâncias sensacionais.

As 20:00 hrs do último sábado (10/01/2009) partimos para o Audax 300 kms de Santa Cruz do Sul. Participar das provas em Santa Cruz do Sul é sempre motivo de alegria, pois a organização do pessoal de lá é realmente diferenciada, ou seja, nenhuma frescura e muita praticidade. A previsão do tempo indicava muita chuva para aquela noite de sábado. Já partimos com uma chuva fina caindo. Em Passo do Sobrado nosso pelotão sofreu a primeira queda, pois a estrada naquele ponto estava muito perigosa. A primeira parada foi no tradicional Pesque e Pague Panorama, onde rolou aquela excelente massa caseira e logo partimos rumo a São Jerônimo.

No Joquei Clube de São Jerônimo foi o nosso primeiro PC, onde pudemos descansar um pouco antes de encarar a estrada novamente com destino a Pinheiral. Logo que partimos de S.Jerônimo a chuva começou a apertar um pouco, e quando passamos por General Câmera ela veio com tudo. Estava difícil de enchergar, nosso pelotão vinha tomando muito cuidado com a estrada esburacada. As coisas acontecem tão rápido, muito mais rápido do que pudemos imaginar, então um dos companheiros de prova literalmente teve a bike engolida por um buraco, a bike ficou e ele saiu rolando, outro parceiro de prova acabou caindo junto e veio direto para a frente da Anita. Chamei nos freios, mas o piso e os freios extramente molhados não ajudam em nada, então bati no meio das costas dele e também levei chão. Minha adrenalina explodiu nas veias, será que tinha me machudado de novo ? Fui com o rosto no asfalto, porém as mãos e o capacete evitaram maiores complicações, todos levantaram fizemos as verificações de praxe nas bikes e logo partimos pra estrada novamente.

A Anita estava diferente, com a frente muito arisca, o manete Campagnolo Chorus esquerdo quebrado, a fita de guidão do lado esquerdo em frangalhos e eu com aquela sensação de que estava pedalando a bike de outra pessoa. Paramos no Pesque e Pague Panorama pra fazer um lanche que deixamos encomendado e logo partimos novamente pra estada, chegando as 05:30 AM em Pinheiral. Como o Restaurante Casa Cheia em Venâncio Aires abre as 06:00 AM, resolvemos tocar pedal até lá pra tomar o café da manhã. Chegando no restaurante percebi que não podia mais dobrar a roda além de poucos centímetros porque ela tocava nos pedais. Foi aí que examei com mais atenção o quadro, nas junções do top-tube e o tubo inferior com a caixa de direção. Os dois tubos estavam torcidos, o que levou a roda dianteira alguns centímetros para trás, por isto ela estava tão arisca. Muitas coisas passaram pela minha cabeça naquela hora, porém uma tristeza começou a tomar conta de mim, e eu tive que logo que retomar o foco na prova novamente para não deixar aquele sentimento ruim se apoderar de mim. Consultei o Faccin se não havia o risco de o quadro romper em definitivo, o que acarreteria em um acidente mais grave, e ele me tranquilizou de que este risco era quase nulo. Resolvi continuar na prova e concluir então o último Audax da minha guerreira Anita. Faltavam ainda cento e poucos quilômetros para o término da prova.

As 14:20 hrs do domingo, 11 de janeiro de 2009, junto com meus amigos Ricardo Baldasso e Vitor Matzembacher chegamos à UNISC, concluindo então a prova que encerrou a carreira da minha querida e inesquecível Anita.

Ela ficará agora guardada para sempre, primeiro em meu coração, e físicamente exposta com honras em minha casa.

Agradeço especialmente ao meu amigo Klaus Rurak, pois através dele pude pedalar em uma bicicleta realmente fora de série, que mudou completamente meus conceitos sobre bicicletas.

Desculpe pessoal, mas é difícil escrever estes últimos parágrafos e evitar as lágrimas, porém a vida é assim mesmo. E agora voltamos às primeiras linhas deste texto, mais importante do que as conquistas e suas medalhas, são as cicatrizes do percurso.

Adeus a minha querida Anita, descanse em paz !!!

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

AUDAX 600 KMS DE SANTA CRUZ DO SUL


Sexta-feira, 01/08/2008, conforme combinado com os amigos de nosso pelotão, marcamos de nos encontrar no Restaurante Schuster lá em Santa Cruz do Sul, entre 10:30 e 11:00 AM. Quando estava quase chegando recebi uma ligação do Vitor informando que o PC estava quase fechando, e eu estava atrasado. Claro, uma brincadeira com referência as provas Audax, pois já passava das 11:00 hrs e eu ainda não havia chegado. Em seguida estávamos todos batendo papo no Restaurante Centenário. A Esther apareceu por lá e almoçou com a gente.


A tarde visitamos a Faccin Bicicletas, compramos alguns equipamentos e logo nos dirigimos ao Hotel Antonios para descansar. A noite rolou mais uma janta antes dos últimos preparativos para a largada, marcada para a 00:00 do sábado (02/08). Eram mais ou menos 18:00 hrs da sexta-feira quando começou a chover forte, muita chuva mesmo ! Ficamos apreensivos, e logo fomos alterando nossos planos para a prova, que agora incluía muita chuva pela frente. Parecia uma repetição do Audax 600 kms de Porto Alegre em 2006.

Hora do briefing, aproximadamente as 23:00 hrs da sexta, e o Faccin colocou o horário da largada em votação, ou seja, se a maioria do grupo concordasse a gente largaria com chuva mesmo, caso contrário largaríamos então as 06:00 AM do sábado (02/08). Por unanimidade a largada foi então transferida para as 06:00 AM do sábado, o que provaria ser uma decisão acertada.

As 05:00 AM do sábado nos encontramos para o café da manhã, a chuva já havia cessado mas o tempo continuava bastante húmido. Após o café finalmente havia chegado o grande momento da largada. Tivemos nossa única baixa, pois a Esther não apareceu para a largada. As 06:10 AM partimos para estrada, para aquela que seria a mais sensacional prova Audax que já fiz até então. Minha 21a prova, o terceiro brevet de 600 kms.

O asfalto estava banhado pela chuva, com muitas poças d'água, porém o ânimo de todos estava elevadíssimo. Algumas voltas dentro da cidade para completar a quilometragem e logo depois partimos em direção a Candelária. O ritmo começou mais pausado, como sempre deve ser um brevet mais longo como este, e todos pedalamos juntos até o PA de Candelária. Uma pequena pausa e logo partimos novamente para a estrada. Nosso destino agora era Novo Cabrais. Passamos ao lado de lindas montanhas, o que sempre torna a pedalada ainda mais agradável. Logo estávamos na estrada para Cachoeira do Sul, agora por uma estrada mais comum, sem aquelas lindas montanhas do percurso anterior. O vento começou a bater lateralmente, o pelotão ficou mais esticado, porém a gente conseguia visualizar os companheiros que estavam a frente ou na retaguarda. Chegamos próximo ao meio dia no Restaurante Papagaio, na BR 290. Aqui foi nossa primeira pausa para uma alimentação mais adequada, o almoço. É incrível como a grande maioria come muito nestas paradas, e como é importante "perder" tempo com o reabastecimento da "máquina", e comer corretamente faz parte da estratégia, ou seja, nada de churrasco ou comidas mais pesadas. As massas sempre são as mais visadas por todos.

Após o almoço partimos então para mais um trecho, agora pela BR 290, que nos levaria então até a cidade de Pantano Grande. Em um determinado trecho apanhamos um asfalto simplesmente fora de série, e aproveitamos para "brincar" um pouco com a velocidade. Algumas fugas, obviamente neutralizadas, porém tudo como uma grande brincadeira, pois ninguém estava a fim de quebrar um pelotão tão unido como o nosso. Se alguém empreendia alguma fuga, logo baixava o ritmo para ser alcançado pelos demais. Ao chegar em Pantano Grande nos reabastecemos de Gatorade, água, etc...

Partimos de Pantano Grande, agora nosso trajeto nos levaria de volta a Santa Cruz do Sul passando antes por Rio Pardo. Uma estrada cheia de sobe e desce, o que seria uma constante nesta prova. O Paulo estava com problemas no pneu traseiro, e perdeu bastante tempo tendo que parar constantemente para encher o mesmo. Chegamos de tarde a Sta.Cruz, e a fome já estava apertando novamente. Decidimos aguardar a chegada do Paulo, e aproveitamos para tomar um banho, para fazer mais uma sessão de comilança, desta vez em um café colonial. O Paulo chegou e também reabasteceu a "máquina" antes de partimos para o percurso noturno da prova. Um trecho de mais ou menos 180 kms.

A subida que fica logo após o trevo Vida Nova é um perfeito desafio para qualquer ciclista de longas distâncias. Se você baixar muito o ritmo vai "perder" muito tempo, se aumentar o ritmo vai levar um banho de suor. E tudo o que a gente não quer é ficar molhado logo no início do percurso noturno da prova. É melhor tentar achar um meio termo, e o que eu faço é começar a subida com o quebra vento aberto, no início é meio frio, mas logo o calor da escalada toma conta e a temperatura corporal volta ao normal, e o suor não fica tão abundante. Depois da escalada tem a descida das 7 curvas, onde a velocidade aumenta significativamente, e com ela os perigos aumentam também. Aliás, nestas questões de subidas e descidas é muito curioso como a gente fica torcendo para não apanhar descidas longas quando a temperatura está um pouco baixa, e olha que não estávamos com tanto frio assim, porém estas descidas gelam um pouquinho !

A noite já havia caído, e nós adentramos o percurso pela RS-405 em direção ao Pesque Pague Panorama. O Faccin já havia reservado, com antecedência, um carregado prato de massa para cada um de nós então tocamos pedal com o pensamento na comida. A estrada está bastante esburacada, principalmente no trajeto entre Passo do Sobrado e Vale Verde. Por falar em Passo do Sobrado, logo depois que a gente passa pelo acesso da cidade tem aquela já famosa subidinha, onde a maioria da galera preferiu aliviar um pouco o giro e subir moderadamente. Sem nenhum peso na consciência eu coloquei a primeira marcha na Anita (para quem não sabe, este é o nome da minha Pinarello) e tocamos pedal morro acima. Do outro lado do morro tem um descidão, mas a estrada está ruim e a noite está escura, então é importante abrir bem os olhos e redobrar a atenção. Depois de passar por Vale Verde a estrada melhora muito, e segue num sobe e desce constante onde é possível aproveitar bem tanto as subidas quanto as descidas. Alternamos alguns momentos de apenas pedal, sem papo, e outros de muita conversa, o Graxa contando suas histórias engraçadas, o Faccin nos falando da inigualável experiência de pedalar 1200 kms na mais famosa prova Audax, a Paris-Brest-Paris, o Trevisan comentando seus planos para os 1200 kms nos Estados Unidos... e assim vamos girando nossas magrelas rumo ao Pesque e Pague Panorama.

Finalmente chegamos ao pesque e pague, e os proprietários do local nos serviram uma massa caseira simplesmente fantástica. Comemos muita massa, com pão caseiro um litrão de refrigerante. Deixamos encomendados alguns sanduiches, para apanhar-mos no retorno junto com mais um litrão de refrigerante. Alguns alongamentos e partimos para a estrada novamente. Nosso destino agora era o Posto ABS, em General Câmara. Ao partir do pesque e pague temos uma descida forte, e como estávamos com o corpo frio, voltamos a nos queixar um pouco das descidas. Continuamos girando, passamos por Santo Amaro e dê-lhe pedal até alcançar-mos finalmente o PC3 no Posto Abs em General Câmara. Uma pausa para um café forte, reabastecimento de água e logo partimos para o retorno a Sta.Cruz. Antes de Santo Amaro encontramos com o Paulo e o Dacivaldo, que estavam pedalando juntos. O Dacivaldo havia furado dois pneus, e na madrugada é sempre bom ter um companheiro de prova para dar aquele apoio moral. Batemos um papo rápido e logo continuamos o giro.

Chegamos ao Pesque e Pague Panorama na madrugada, os sanduiches que havíamos encomendado estavam nos aguardando. Comemos nossos lanches e saímos para a estrada. Este foi o momento mais engraçado da prova, pois pensávamos que o Paulo e o Dacivaldo podiam estar por perto, já retornando do PC3. Estávamos completamente sozinhos na estrada, então o Graxa largou a voz: DACIVALDOOOOOOOOOO !!!!! O grito ecoou pelos campos da região, e a nossa gargalhada também, com certeza !!!

Até que a madrugada não estava fria, o pedal passou a fluir em uma cadência muito legal, então o Vitor descolou do pelotão e abriu alguns minutos a frente, em seguida eu parti também e alcancei ele na subida forte logo após Vale Verde. A subidinha é realmente forte, porém do outro lado temos uma descida de porte semelhante, então é pedalar e esquecer o esforço. Descemos do outro lado do morro e logo chegamos ao trevo de acesso a Passo do Sobrado. Continuamos girando juntos, chegando logo ao Restaurante Schuster. Partimos para a escalada das famosas sete curvas e dê-lhe pedal, descida em direção ao trevo Vida Nova, entramos na cidade e logo chegamos ao Hotel Antonio's novamente, era 04:31 AM (03/08 - domingo) portanto havíamos rodado 410 kms em pouco mais do que 22 horas. Estava concluída a segunda parte da prova, faltando agora apenas os últimos 200 kms.

Segundo nossos planos para a prova, havia chegado o momento do maior intervalo, inclusive com pausa para algumas horas de sono. Combinamos de nos encontrar-mos no café do hotel as 08:30 hrs, com previsão de relargada para as 09:00 hrs.

As 09:15 partimos todos juntos para o derradeiro trecho, psicológicamente este é o melhor momento, porém fisicamente não. Eu consegui dormir durante 02:30 hrs, após ter tomado um excelente banho que sempre revigora um pouco, mas nunca é o suficiente, continuamos com um pouco de sono e cansaço. A velha escalada após o trevo Vida Nova estava lá novamente, e não tinha jeito a não ser encarar e subir. Dê-lhe pedal, força, respiração, olhar para baixo focando mais o chão, afinal ninguém quer olhar para o alto e ver o quanto ainda falta de escalada. Depois da subida tem a descida das 7 curvas, e como já é dia claro então aproveitamos para deixar as magrelas despencarem estrada abaixo !!!
Passamos o Schuster, o pedágio, logo alcançamos o trevo de Venâncio Aires onde entramos a esquerda em direção a Mato Leitão. Até Venâncio Aires a galera estava mais no estilo passeio, porém logo começam algumas subidinhas e a turma se entusiasma rapidinho, forçando um pouco os pedais e esticando mais o pelotão.

Em Lajeado o Trevisan chegou em um posto de combustíveis para comprar mais água, eu e o Vitor aproveitamos para tirar água do organismo, mijar mesmo, enquanto o restante do pelotão chegava. Confesso que tenho uma certa bronca do trecho entre Lajeado e Muçum, pois nunca consigo um bom rendimento neste trajeto. Fui girando "despacito", mais giro do que força, e assim fui pedalando junto com a galera até finalmente chegar-mos ao Hotel Hengu, já em Encantado. Era o último PC antes da chegada. Parada mais longa para o almoço. Por falar em almoço, foi mais uma daquelas comilanças quase sem medidas, só cuidando para não comer nada pesado para a digestão. Rolou muita sopa de capeletti, arroz, galeto, e um café forte no final para "acimentar" tudo. O Faccin e o Dacivaldo aproveitaram para tirar um sono rápido, coisa de minutos. Logo partimos para a última parte de nossa jornada, o trecho entre Encantado e Santa Cruz do Sul. Previamente combinamos de nos encontrar no Restaurante Casa Cheia, em Venâncio Aires, para um último lanche antes de encarar a subida das 7 curvas pela última vez nesta prova.

Logo que partimos o pelotão começou a esticar novamente, comigo estavam o Trevisan, o Graxa e o Glademir. Comentei com a galera sobre abrir-mos mais uma sessão de bate papo com a intenção de fazer as horas/quilometragem passarem mais rápido. Foi muito legal, o Trevisan e o Graxa emparelharam as magrelas, eu e o Glademir também e rolou muito papo. Conversamos muito sobre cicloturismo, acabei conhecendo mais um cicloturista convicto, o Glademir. Ele me falou das várias cicloviagens que já fez, inclusive pela Argentina, por estradas que ainda não tive o privilégio de pedalar. É sempre muito gratificante conhecer um cicloturista de fato, as suas experiências, a vivência na estrada, o contato com outras culturas... Foi sensacional saber que eu tinha um companheiro cicloturista "brevetando" os 600 kms, quem sabe algum dia possamos conquistar alguns caminhos por este mundão velho de Deus !!!

Passamos por Lajeado em seguida alcançando o trevo de acesso a Cruzeiro do Sul, uma surpresa ! O pneu traseiro da Anita furou, porém trocamos rapidamente a câmara e logo partimos novamente. Agora já estávamos mais concentrados na prova novamente, alcançando o posto do pedágio rapidamente, local em que o Faccin aproveitou para mais uma das suas muitas esvaziadas do "buffer intestinal" - eheheheheh !!!

Mais estrada, sobe e desce constante, a descida grande na chegada a Venâncio Aires chegando em seguida ao Restaurante Casa Cheia. Conforme combinado paramos para um último lanche. Para variar eu estava morrendo de fome novamente, então rolou um pastel de carne, um sonho recheado com doce de leite, uma torrada só de queijo e um refrigerante 600 ml, só para aliviar a fome e preparar as pernas para a última subida. Partimos com a tarde indo embora, portanto hora de acender as sinaleiras/faróis, colocar os coletes reflexivos e aguçar a visão. Para variar um caminhão passou tirando tinta d'agente, e o Graxa não deixou por menos interpelando o caminhoneiro no pedágio de Venâncio Aires. Quase rola uma confusão, logo sanada ! Cá entre nós, eu só tinha a mente focada na chegada, nada mais me importava, nada mais me interessava, a chegada neste ponto da prova é o grande prêmio, você não consegue pensar em mais nada, não consegue querer mais nada !!!

Passamos o Restaurante Schuster e alguns quilômetros depois é a nossa última escalada das sete curvas nesta prova. Eu pensei, o pelotão vai aliviar o giro e subir ao estilo passeio, e não é que todos estavam adrenalizados acabando por "torcer o cabo" morro acima em um ritmo sensacional. Logo alcançamos o Dacivaldo que não havia parado no Restaurante Casa Cheia e continuamos girando passando pelo posto da Policia Rodoviária, trevo Fritz e Frida chegando no cume todos contentes. Um descidão rumo ao trevo Vida Nova, onde a galera não quis nem saber e largou os freios, mesmo de noite, entramos na cidade e aí a emoção é que toma conta de todos.

Domingo, dia 03/08/2008, 19:45 hrs, estávamos concluindo mais um brevet de 600 kms. A gente fica sem palavras, ainda mais quando uma prova com quase 38 horas tem todas as nuances que esta prova teve, destacando-se dentre todos o companheirismo. Sem dúvida alguma, opinião unânime de todos, foi o Audax mais sensacional que já realizamos, realmente inesquecível !!!

Para concluir este relato, expresso aqui minha humilde visão sobre esta prova:

Não vencemos nossos companheiros, não era este nosso objetivo
Não sobrepujamos nenhum atleta, não era esta a nossa meta
Não conquistamos nenhuma montanha, não foi este o nosso foco

Vencemos sim a ganância humana pela vitrine da conquista
Sobrepujamos sim o desejo oculto de querer superar o próximo
Conquistamos muito mais do que um simples brevet
Conquistamos amigos irmãos !!!

Isaac Silveira Ibaldo

quinta-feira, 17 de julho de 2008

AUDAX 400 KMS DO PARANÁ (CURITIBA)


Cheguei na sexta-feira (11/07/2008) pela manhã a Curitiba. De cara simpatizei com a cidade, muito bonita e cuidada !!!

Fui direto ao hotel, montei a bike, almocei no Barigui Shopping e a tarde visitei algumas lojas de bicicletas. Retornando ao hotel apanhei a Anita e fui dar uma volta no Parque Barigui, aliás, um parque sensacional ! Há uma ciclovia muito legal dentro do parque, por onde andei uns 20 kms só para testar a bike. Depois me recolhi ao hotel, jantei e fiquei aguardando aos amigos que chegariam logo.

Dia da prova, sábado, 12/07/2008 combinamos de nos encontrar no café da manhã as 07:30 AM. O café estava mais ou menos, mas a alegria era geral por estar-mos todos juntos nesta empreitada dos 400 kms do Paraná. Estavam lá o Paulo Endres, o Trevisan, Rubens Gandolfi, Vitor Matzembacher, Graxa, Dacivaldo, Esther (única mulher a largar, e completar, este Audax), Udo, Luiz Faccin, Armando, etc...

Após o café partimos logo para o local da largada, no estacionamento da Loja Havan, quase em frente ao hotel. Trinta e três ciclistas inscritos, três não compaceram então a largada, as 10:00 AM, aconteceu com 30 ciclistas partindo para o desafio.

Em nosso velho pelotão tivemos o ingresso do Graxa, e assim partimos para os primeiros 117 kms até o PC1. De cara percebi que não estava nos meus melhores dias, pois não estava conseguindo acompanhar o pelotão. Nestes casos a experiência do cicloturismo ajuda muito, pois foi só maneirar a pedalada e deixar o pelotão seguir em frente, sem stress !! Fiquei sozinho, passei dois ou três companheiros de prova pelo caminho e segui em frente, até chegar ao primeiro trevo de acesso a cidade de Ponta Grossa. Quase me perdi nesta parte da prova, parando duas vezes para conferir a carta de rota e mais duas vezes para pedir informações. Na primeira vez um pedestre me disse que o Posto Tigrão estava muito longe, e o meu ciclocomputer já marcava mais dos que os 113 kms que informava a carta de rota; segundo ele eu estava a "absurdos" 2 kms do Posto Tigrão ! Fiquei pensando se eu falasse pra ele que a prova tinha 400 kms, certamente me chamaria de mentiroso !

Mais uma parada para perguntar sobre o famoso posto, e desta vez tive que retornar uns 50 metros no caminho para finalmente apanhar a estrada que poucos metros depois me fizeram chegar ao PC1. Meu ciclocomputer marcava 117 kms, e o relógio mais ou menos 14:30 hrs. Eu estava exausto, parecia ter pedalado 600 kms até ali. Após carimbar o passaporte, encontrei com o Trevisan, o Graxa e o Vitor. Encontrar com os amigos já foi um estímulo, e mais ainda quando ví um restaurante aberto, com muita comida a disposição. Parti para o spaghetti com afinco, e logo depois ganhei a companhia do Paulo Endres, que também se abasteceu de muita massa.

Em seguida chegou também o Faccin e seu parceiro de prova, o David. Eles optaram por não almoçar. Quando estávamos nos preparando para relargar chegou o Rubens e a Estherzinha. Agora a alegria estava completa, vendo que nossos parceiros estavam todos super inteiros. Enquanto o Faccin e o David retomavam a estrada, eu e o Paulo fomos bater um papo rápido com o Rubens e a Esther.

Eram 15:45 hrs quando eu e o Paulo partimos para o PC2. Logo que apanhamos a estrada rumo a Foz do Iguaçu já percebi que o mal que havia me atingido no início da prova era fome mesmo. A minha energia estava de volta, comecei a me sentir "normal" de novo. A estrada melhorou significativamente, o movimento de veículos diminuiu e a pedalada ficou mais redonda. Batemos muito papo neste trecho da estrada, as horas e a quilometragem voavam, encontramos com nosso amigo Dacivaldo que ficou arrumando um detalhe da bagagem dele e nós continuamos girando até alcançar um posto de pedágio. Depois do pedágio havia uma serra legal para descer, o Paulo partiu com tudo e eu fiquei uns 50 metros para trás. Um caminhão começou a descer a milhão e eu quase perco a voz gritando na tentativa de alertar o Paulo. Vinha um carro no sentido contrário, e o caminhão usou os freios para alertar o Paulo sobre usa presença, então é acostamento na hora e o caminhão foi embora. Logo depois chegamos ao trevo de acesso a Imbituva. No acesso já acendemos as luzes traseiras das magrelas, a tarde já estava indo embora. Chegamos a Imbituva e nos dirigimos a um posto de combustíveis para colocar uma roupa mais quente, tomar um refrigerante. Lá encontramos também outro audaxioso digamos menos ortodoxo, pois tinha um carro dando apoio ao mesmo. Cada um faz a sua história, dentro ou fora das regras !

Passamos por Imbituva, havia uma avenida muito bonita na pequena cidade. Até alcançar-mos a saída da cidade, rumo a Irati, passamos por algumas ruas com boas subidinhas. Logo estávamos na estrada, que não era nenhuma maravilha, mas era possível tocar o pedal. Continuamos girando, antes de alcançar-mos o trevo de Irati já passou o primeiro audaxioso. Após o trevo de Irati encontramos com o Trevisan, o Vitor e o Graxa que já estavam retornando rumo ao PC3.

Já estávamos com fome novamente e quando chegamos ao PC2 eu pensei que poderíamos comer uma boa massa no local. Só encontramos lanches, então foram quatro pastéis grandes e uma torrada só de queijo (isso tudo só pra mim). O Faccin e o David estavam por lá, mais uma galera uniformizada e um senhor de Santa Catarina, muito gente fina. Após a comillança no preparamos para partir, antes porém chegaram a Esther e o Rubens. Largamos agora com a presença do Faccin, o David e o audaxioso de Sta.Catarina.

O ritmo melhorou bastante, o pouco vento ajudava e a galera estava animada novamente. Logo chegamos a Imbituva, por onde passamos por caminhos diferentes. Eu havia comentado com o Paulo sobre o desejo de passar pela linda avenida da cidade. E foi por ela que passamos, com um monte de jovens em pequenos barzinhos. Continuamos girando as magrelas e logo chegamos a uma pequena serra que nos levaria até o posto de pedágio, onde paramos para comer dois sanduiches de queijo. Foi muito legal fazer uma pequena pausa, bater um papo, comer sanduiche com gatorade, fazer o velho "mix" e descansar por alguns minutos. Acho incrível como pequenas pausas como aquela podem melhorar o astral, deixar a gente mais tranquilo para continuar o giro.

Dê-lhe pedal que ainda tem muito asfalto pela frente, logo encontramos um ciclista empurrando a bike montanha acima, ele havia desistido ! Uma pena, mas são coisas que acontecem, e sempre haverá outra oportunidade para ele tentar novamente. Encontramos novamente o Dacivaldo que girou com a gente até o trevo da cidade de Ponta Grossa. De lá ele partiu para o PC3, e nós fomos a uma pequena lancheria que haviam nos comentado estar aberta 24 horas. A tal lancheria era uma porcaria, no sentido da sujeira mesmo ! Comemos algumas porcarias e fomos para a estrada novamente. Chegamos ao PC3 na madrugada, não lembro o horário, mas devia ser umas 04:00 AM. Lá encontramos uma voluntária no mínimo estranha, pois parecia querer nos prejudicar psicológicamente falando um monte de besterias que não tinha nada a ver. Nem dei bola pra ela, pois para este tipo de pessoa é melhor a gente nem prestar atenção. Ah, aproveitei a parada neste último PC para tomar um café bem forte, e também para ajudar a sujar um banheiro bem limpinho que havia no local - eheheheheh !!!
O Dacivaldo estava tirando um belo ronco escorado numa mesa !

Na partida deste PC alinhamos eu, o Paulo Endres e o Faccin. O Dacivaldo e o David ficaram dormindo.

Agora faltava o último trecho até a chegada, e isto psicológicamente sempre é positivo. O giro estava tranquilo, o Faccin não parava de falar (não nega as origens hem italiano ?!) e assim continuamos "remando" subindo e descendo pela estrada. O Paulo começou a usar as descidas com vontade, eu me animei e fui atrás, e quando me dei conta o Faccin havia ficado (mais tarde ele nos contou que havia furado um pneu). Quando faltavam uns 70 e poucos kms para a chegada o Paulo também furou um pneu. Paramos, eu aproveitei para trocar as lentes do óculos, comer castanhas de cajú... o Dacivaldo passou, depois o Faccin e logo nós estávamos na estrada novamente.

No pedágio o Paulo parou em uma lancheria para tomar um refri, e logo continuamos pedalando. Descemos uma serrinha sensacional, onde encontramos o Vandré parado no acostamento tremendo de frio, muito engraçado mesmo !!! E dê-lhe sobe e desce, eu diria que este percurso poderia se chamar Audax Gangorra ! Mais uma subida e finalmente chegamos ao Posto da Polícia Rodoviária, o relógio marcava 10:25 AM, onde havia um fiscal da prova registrando nossa chegada ao quilômetro 400. Mas ainda tinham mais alguns kms até a chegada, e assim continuamos para finalmente chegar-mos ao estacionamento da Loja Havam, cumprindo mais um Audax 400, o meu quarto Audax de 400 kms.

Algumas observações:

1- o trajeto (com bastante subidas) foi sensacional !
2- muito bom pedalar com o Faccin. Depois do PBP ele parece curtir muito mais a prova, sem correrias desnecessárias;
3- inesquecível aquele trecho do trajeto em direção a Imbituva, a estrada estava perfeita, o papo rolou solto e a gente nem percebeu a quilometragem;
4- eu e o Paulo encontramos um bêbado na chegada a Imbituva, o cara tava "pra lá de Bagdá" !!! Mais torto que alça de pinico !!!
5- com subidas, a Anita pega mais leve, ou seja, vai mais devagar ! Nas descidas ela voa, no plano ela mantém sempre a cadência que o piloto mandar. Uma grande companheira !

Meu ciclocomputer

Distância percorrida: 423,82 kms
Tempo pedalado: 19:20:47 hrs
Média: 21.9 kms/h
Velocidade máxima no percurso: 71.0 kms/h



sábado, 28 de junho de 2008

Reflexão !


Do livro O meu Everest, de Luciano Pires, retirei esta verdadeira pérola, que ele talvez não saiba, mas descreve perfeitamente o significado da palavra "cicloturismo" pra mim.


"Eu estava num lugar maravilhoso, onde a natureza, de tão bela, chega a ser opressiva, onde o homem está a mercê de forças tão poderosas que nossa mente não compreende, onde o importante era o básico dos básicos: comida e abrigo. Nada mais importava.


Quando a gente faz o paralelo com nossa vida normal, onde a questão do abrigo e do alimento está resolvida, mas a gente mal tem tempo para olhar para o céu e curtir as estrelas, onde criamos nossos filhos como se fossem gado para o abate: num cercado, sem exercícios e com muita, muita comida... chega a dar vergonha.

O pensamento automaticamente volta para a trilha, como que fugindo do incomodo de encarar a superficialidade estúpida de nossas vidas, de nossos objetivos, de nossas batalhas diárias.

A vida daquele pessoal do Himalaia é dura ? Certamente. Mas... Sem luz, não tem rádio, não tem TV, não tem cinema, nem discoteca. O que eles fazem ? Conversam.

À noite, a diversão era sentar e conversar. Contar e ouvir histórias. Pais falando com filhos. Marido com mulher... para nós era algo pontual, parte daqueles 15 dias de viagem. Para os nativos, é o dia-a-dia. O paralelo com a civilização é arrasador.

Pensar na minha casa, onde eu, minha esposa e meus dois filhos desperdiçamos as noites vendo televisão. Cada um no seu quarto. Onde a ameaça do apagão é desespero porque a gente não vai ter o que fazer à noite... como se conversar fosse algo impensável...

É impossível não refletir sobre nossa civilizada, avançada tecnologia e estúpida mediocridade."

O meu Everest
Luciano Pires

Audax 600 kms - série 2006


Este é o relato do meu segundo brevet de 600 kms, partindo da cidade de Eldorado do Sul (RS) no dia 16/07/2006.

PRÓLOGO DE ÁGUA

Quarta-feira, 12/07/2006, o site Audax-RS confirma a realização da prova para o final de semana, segundo os metereologistas a chuva cairia "apenas" até ao meio dia do sábado. Provaríamos que realmente não há mais como prever com exatidão as condições climáticas do planeta.

Por uma série de compromissos não consegui cumprir uma de minhas orientações para a prova, que é a de aumentar a cota de sono na semana da corrida. Pensei em chegar mais cedo em casa na sexta-feira e dormir algumas horas, mas tive a desagradável surpresa de encontrar a Albatroz com o pneu dianteiro furado, e até conseguir arrumar tudo as horas pareciam voar, então não foi possível descansar.

Cheguei em Eldorado do Sul, local da largada neste ano, as 22:30hrs. Alguns amigos já estavam por lá, inclusive meu parceiro de treinos, o Rubens Gandolfi. Montei a bike, fechei os últimos preparativos e as 23:30hrs fomos chamados para o briefing. As tradicionais recomendações, especialmente porque a chuva já era abundante, e as 00:10 hrs partimos para uma longa e divertida aventura. Chovia muito !

PRIMEIRO ATO - ACIDENTE E PNEU FURADO

Partir de Eldorado do Sul, ao meu ver, foi mais interessante, pois não tivemos que encarar as pontes que ficam no caminho entre Porto Alegre e Eldorado com suas armadilhas sob o piso. Já na estrada para Charqueadas um companheiro de prova sofre uma queda e bate com o rosto no asfalto, primeira baixa da corrida. Ainda antes de Charqueadas o pelotão já estava formado: Rubens, Edson, Trevisan, Paulo Endres, Thales, Luiz Faccin e eu. Este é o pelotão que concluiu o Audax 400 juntos. Antes de Charqueadas já tivemos o primeiro pneu furado, uma desgraça para provas desta categoria, visto que além de perder tempo faz com que esfriemos o ritmo da pedalada.

Passamos girando por Charqueadas, e seguimos em frente rumo ao primeiro PC, no famoso Pesque e Pague Panorama. Após 90 kms chegamos as 04:00hrs neste PC. A chuva era nossa constante companheira.

RUMO A SANTA CRUZ DO SUL

Após o primeiro PC continuamos girando firmes na estrada, alcançamos Vale Verde e logo em seguida encaramos uma pequena e íngrime subida, para passarmos por Passo do Sobrado. Poucos quilômetros depois chegamos a rodovia que nos levaria através de uma pequena serra até a Pousada Vida Nova, fechando os primeiros 148 kms até o segundo PC da prova.

A FASE SOBE-E-DESCE

Partindo da Pousada Vida Nova há uma pequena serra muito interessante, e depois é descer o outro lado da estrada rumo ao Restaurante Shuster, mais alguns quilômetros até o trevo de Venâncio Aires e seguimos pedalando em frente mais uns 10 kms até um posto de combustíveis. Uma parada para assinar a lista de presença neste posto, fazer um lanchinho rápido e na hora de sair temos mais outro pneu furado. O pelotão neste momento estava acrescido do Danilo Baldi e o Marcos Lazarotto, e eles continuaram girando junto com o Rubens, enquando nós ficamos trocando o pneu. Logo em seguida também partimos para a estrada e nem bem adentramos o trajeto para Lajeado e um ciclista estava nos aguardando com o pneu furado. Não deu pra entender porque ele não estava trocando o pneu, parece que apenas queria compania para fazer isto.

Este trecho é cheio de coxilhas, e nosso pelotão estava aproveitando bem as condições do terreno principalmente para embalar as magrelas nas descidas e maneirar um pouco nas subidas. Logo a frente outro pneu furado, mais uma parada e eu segui em frente com o Thales, rumando para Lajeado sob uma chuva fina. No caminho avistei a bike do Rubens parada em frente a um restaurante, ele devia estar abastecendo a máquina.

Cheguei ao meio dia no PC3, em Lajeado, após 227 kms percorridos até então. Logo em seguida chegaram mais parceiros de prova e também o Rubens. A parada foi mais longa para comer alguma coisa e logo nos preparamos para seguir em frente. O Rubens e o Thales estavam então abortando a prova, por problemas de saúde. A estrada agora possui uma série de subidas sensacionais, com bom acostamento, excelente visual, e a chuva batendo firme no lombo. Ainda bem que eu instalei um paralamas dianteiro na Albatroz, senão já estaria com os olhos comprometidos.

Eram 14:30hrs quando cheguei ao PC4, em Muçum, e os amigos de Lajeado estavam lá nos aguardando, o Régis e a Magali, e outros que nem lembro o nome. Todos muito camaradas e dando a maior força pra nós. A pausa teve que ser ainda maior, pois como a chuva tinha dado uma trégua, chegamos até a pensar que seria definitiva, aproveitamos para secar as capas de chuvas, dar uma olhada no equipamento em geral e claro, comer muito ! Cheguei a sair sem a capa de chuva deste PC, porém após poucos quilômetros a chuva reiniciou, então que tive que parar para recolocar a capa. O pessoal continuou avançando, e tive que fazer um belo de um sprint para alcança-los novamente.

O Faccin puxava o pelotão, e fomos tocando pedal até o PC5, em Lajeado novamente. Pequena pausa neste PC e logo estávamos na estrada. O objetivo deste trecho é alcançar o PC6, na Pousada Vida Nova, em Sta.Cruz do Sul. O Trevisan e o Paulo Endres deram uma aliviada no pedal e eu e o Edson continuamos girando juntos até chegar-mos ao PC6, com 358 kms percorridos até aqui. O Faccin havia parado no caminho para acompanhar a troca de mais um pneu furado de outro ciclista.

IDAS E VINDAS A STA.CRUZ

O pessoal da organização estava cozinhando uma massa, e como ainda demoraria um pouco, resolvemos então seguir para Rio Pardinho e jantar a massa no retorno a Sta.Cruz. Tocamos pedal por uma estradinha cheia de armadilhas, muitos buracos, e chegamos inteiros em Rio Pardinho. Aproveitamos a rápida parada para tomar um guaraná da colônia, em seguida chegou o Faccin com outro companheiro de prova, e logo tocamos pedal em direção a Sta.Cruz novamente. Chegando novamente na Pousada Vida Nova finalmente podemos comer a tão prometida massa, que foi devorada com muito gosto.


Não demoramos muito para reinicar-mos o giro em direção a Candelária. Partimos da pousada eu, o Edson, o Faccin e o Joel (de Candelária), e começamos girando muito alto, com uma média acima dos 35 kms/h, o que no proporcionou chegar rápido a Candelária. Neste PC havia um sopão sensacional, então aproveitamos para "completar o combustível" e preparar o retorno a Sta.Cruz. O Faccin e o Joel resolveram dormir em Candelária, eu e o Edson optamos por retornar a Pousada Vida Nova, em Sta.Cruz.

O vento estava meio esquisito neste trecho de 33 kms entre Candelária e Sta.Cruz, e por uma boa parte do caminho tivemos a compania do Danilo Baldi e o Marcos Lazzarotto. Chegamos bem cansados ao PC, as 02:09 AM, com o quarto já reservado partimos logo para o banho e em seguida para uma soneca de 3 horas. Antes porém deixei a Albatroz aos cuidados do mecânico para uma boa limpeza na transmissão. Havíamos combinado com o Paulo Endres e o Trevisan a partida da Pousada Vida Nova as 06:00 AM, sendo que eles chegaram a Pousada as 02:51 AM e também puderam descansar um pouco.

O ÚLTIMO TRECHO DO DESAFIO

As 05:30 AM o despertador tocou e já estava na hora de retomar o giro, agora faltando apenas 148 kms até a linha de chegada. Partimos eu, o Edson, o Paulo Endres e o Trevisan. Depois de um descanso, banho tomado, roupas e sapatilhas secas, café da manhã... as condições eram bem melhores. Não chovia, o vento não estava atrapalhando, porém já de saída apanhamos aquela serrinha já famosa da saída deste PC, aliviamos a pedalada e seguimos "remando" estrada acima.

Descidas fortes até o Shuster e logo acessamos a estrada em direção ao Pesque e Pague Panorama, uma estradinha muito conhecida por todos. O papo estava rolando solto em nosso pequeno pelotão, não dava nem pra sentir a quilometragem, pois a animação era geral. Chegamos próximo do local onde os cachorros são os audaxiosos mais famosos, e combinamos de passar sprintando pelo local.
O alinhamento ficou com o Trevisan na frente, depois o Edson, eu e o Paulo Endres. O cachorro já estava espreitando, e cismou comigo. Foi uma situação que eu ainda não tinha vivido, com um cachorro saltando sobre a minha perna direita, dando a volta na bike e atacando pela esquerda também. Não levei um tombo por detalhe, e ele só parou de me atacar quando parei e bike e resolvei partir pra cima dele, com intenções de jogar a Albatroz em cima do medonho. Que sufoco !!!

Passado o susto continuamos "remando" até o PC 10, no Pasque e Pague Panorama, chegando as 09:18 AM do domingo. Um belo café com leite e muitos sanduíches depois partimos para a linha da chegada, restando 90 kms. Já de saída mais um pneu furado, desta vez da bike do Paulo Endres, e fizemos mais uma parada para trocar a câmara. O Edson e eu havíamos apanhado uma banana cada um e combinado de comê-las na ponte do Rio Jacuí. Logo chegamos à ponte e comemos as bananas, depois foi São Jerônimo, e logo chegamos ao Postaço, em Charqueadas. Fizemos uma última parada estratégica e o Edson mostrou o tornozelo super inchado e dolorido. Nesta prova mais longa eu carrego uma cartela de Cataflan comprimidos, Hipoglos, e um tubo de Gelol, a gente nunca sabe quando pode precisar de um remedinho desses. Emprestei o Gelol para o Edson usar no tornozelo, porém o ritmo dele caiu pra caramba, o que era de se esperar.

O Paulo Endres abriu caminho, e continuamos tocando pedal até o pedágio na BR 290, início daquele retão que eu detesto passar. Forcei a pedalada para me livrar logo do retão e quando cheguei na estrada para Eldorado já não enxergava mais o grupo. Como já estávamos chegando, e eu me sentia totalmente novo, resolvi fazer o velho e bom sprint final, girando na casa dos 30 a 35 kms/h até chegar a Eldorado do Sul.

As 14:33 hrs do domingo, 17/07/2006, completava então meu segundo brevet 600 kms, com uma grande recepção no ginásio municipal de Eldorado do Sul. Dos 36 audaxiosos que largaram apenas 19 conseguiram concluir com sucesso esta prova sensacional. Em que pese a prova ter sido difícil, pelas condições climáticas, foi igualmente gratificante, com ênfase para o pessoal da organização que sempre nos dá uma atenção especial.

Viva o Audax !!!

segunda-feira, 23 de junho de 2008

Chuí-Buenos Aires




Viajar de bicicleta é algo realmente diferenciado, pois evoca uma série de atributos um pouco raros nos dias de hoje: paciência, dedicação aos detalhes, planejamento, disciplina, companheirismo, entre outros. Nosso "time", composto por cinco amigos, traçou o percurso Chuí-Buenos Aires como meta para o feriado do carnaval/2006, e para tal partimos de ônibus desde Porto Alegre até Chuí no dia 24 de fevereito.

Primeiro dia: Chui a La Paloma
25/02/2006

Na manhã do dia 25/02 curtimos nosso café da manhã no lado uruguaio do Chuí, realizamos o câmbio para a moeda uruguaia e logo estávamos efetivamente na estrada. As bicicletas com seus alforjes instalados, a camaradagem entre novos e velhos amigos e a perspectiva de muitos quilômetros pela frente nos traziam um misto de ansiedade e felicidade na partida.
Nosso primeiro dia na estrada foi o mais duro, pois as condições climáticas não estavam favoráveis, com vento e chuva durante quase todo o percurso. Foram 140 kms de muita diversão, muito pedal, apanhando uma estrada vicinal que nos levou a pequena Águas Dulces, onde almoçamos, passando pelo acesso a Cabo Polônio e chegando a La Paloma, onde pernoitamos.

Segundo dia: La Paloma a La Barra
26/02/2006


O tempo melhorou, e partimos de La Paloma com destino a La Barra, através de uma estrada muito interessante, onde é possível perceber o respeito que os condutores uruguaios possuem pelos ciclistas. Passamos pela cidade de Rocha, parada para um lanche, e continuamos pedalando através de colinas que nos davam um excelente ritmo. Acessamos uma pequena estrada não pavimentada que nos levou novamente a uma "ruta" costeando o Atlântico até adentrar-mos a localidade de La Barra, após 95 kms de estrada. Momento para armar nossas barracas em um camping local, e partir para "cenar" (jantar) em uma pizzaria local.

Terceiro dia: La Barra a Atlândia
27/02/2006


Visitamos Punta del Este, conhecendo pontos importantes da cidade, e partimos novamente para a estrada. Nossa meta agora era chegar a cidade de Atlântida, distante 99 kms de La Barra. Inicialmente apanhamos a auto estrada, uma espécie de freeway uruguaia, porém logo em seguida acessamos uma pequena estrada pavimentada que nos levou através de praias pouco conhecidas até a cidade de Piriápolis, onde o almoço foi em um restaurante maravilhoso a beira mar. Momento de congrassamento entre todos, um "review" dos momentos que tínhamos vividos até então, dos planos para os próximos dias, e apreciação da culinária local, com muita cerveja gelada, é claro ! Depois de uma pausa, retomamos a estrada e chegamos a cidade de Atlântida, onde mais uma vez acampamos e curtimos os restaurantes locais. Agora estávamos muito próximos de Montevideo.


Quarto dia: Atlântida a Montevideo
28/02/2006


Partimos de Atlântida e depois de escassos 45 kms chegamos a capital uruguaia, Montevideo. Fomos direto ao mercado público local, onde fizemos um almoço especial. Depois do almoço nos alojamos no Albergue da Juventude, e nos preparamos para curtir o dia seguinte na cidade.
Era 01/03, e ficamos o dia inteiro visitando pontos turísticos, descansando e nos preparando para o último trecho de pedal: Montevideo-Colônia de Sacramento.


Quinto dia: Montevideo a Colônia del Sacramento
02/03/2006


Programamos nossa partida para as 06:30 da manhã, e ainda estava escuro quando saímos de Montevideo. Era o trajeto mais extenso de nossa cicloviagem, em um percurso com muitas colinas, porém o dia estava excelente, todos estavam animados e seguimos girando com muito ânimo. Paramos algumas vezes, seja para tomar o café da manhã, molhar a garganta com uma boa cerveja gelada, curtir a excelente e revigorante Malta, bater papo na estrada, enfim, viver cada momento intensamente. Alguns quilômetros antes de Colônia fizemos uma parada estratégica para degustação de vinhos em uma adega local, um momento inesquecível da viagem. Chegamos um pouco mais alegres em Colônia de Sacramento, após a degustação de vinhos, na cidade mais antiga do Uruguai e a única de colonização portuguesa. Nos instalamos no Albergue da Juventude local. No dia seguinte, 03 de março, conhecemos os principais pontos turísticos da cidade e aproveitamos para fazer a travessia, no barco Albayzin, do Rio da Prata, chegando a Buenos Aires.

Sexto dia: travessia Colônia del Sacramento-Buenos Aires
03/03/2006


Nosso projeto estava chegando ao fim, porém ainda tínhamos o dia seguinte para curtir Buenos Aires. Conhecemos um pouquinho desta incrível cidade e no dia 04/03/2006 atravessamos novamente o Rio da Prata para Colônia, onde apanhamos um ônibus para Montevideo e de lá outro "busão" de retorno a Porto Alegre.

Grandes momentos vividos em cada quilômetro de estrada, de uma vivência única que somente o cicloturismo pode oferecer, da luta nas poucas subidas, do vento no rosto nas descidas, da concentração nas planícies e sobretudo do privilégio de compartilhar a estrada com a nossa grande companheira: a bicicleta.


Bikers:
Esther Axelrud Galbinski
Klaus Rurak
Rubens Pinheiro Gandolfi
Everton Weissheimer
Isaac Silveira Ibaldo

Trajeto:
24/02/2006 (sexta-feira)- viagem Porto Alegre-Chuí (ônibus)
25/02/2006 (sábado)- Chuí-La Paloma (140 kms)
26/02/2006 (domingo)- La Paloma-La Barra (95 kms)
27/02/2006 (segunda-feira)- La Barra-Atlântida (99 kms)
28/02/2006 (terça-feira)- Atlântida-Montevideo (45 kms)
01/03/2006 (quarta-feira)- turismo em Montevideo
02/03/2006 (quinta-feira)- Montevideo-Colônia de Sacramento (177 kms)
03/03/2006 (sexta-feira)- turismo em Colônia e travessia para Buenos Aires
04/03/2006 (sábado)- turismo em Buenos Aires. Retorno para Montevideo e embarque para Porto Alegre.

Lagos e Vulcões


Fevereiro de 2004, tudo pronto, chegou a hora de embarcar na aventura curtindo 35 horas de ônibus de Porto Alegre a Santiago do Chile, e chegando lá mais 9 horas de Santiago para a cidade de Temuco, 900 kms ao sul. As bikes são transportadas "confortavelmente" no bagageiro do ônibus juntamente com as bagagens dos passageiros, o detalhe é que devem ser transportadas sem a roda dianteira e preferencialmente encapadas. No Chile as empresas de ônibus cobram uma taxa extra por este transporte.

Na chegada a cidade Temuco montamos as bikes, que ganharam mais 38 kgs de peso cada, devido a equipamentos necessários a nossa autonomia. Para citar alguns: barraca, isolante térmico, saco de dormir, fogareiro, panelas, talheres, roupas para frio, roupas especiais para pedalar na chuva, kit básico de medicamentos, ferramentas para a bicicleta, pneu reserva, duas câmaras reservas, etc, etc...
Era a nossa primeira experiência com o rípio chileno, que são estradas sem pavimentação cobertas com pedras extraídas dos rios da região. Estas pedras, de todos os tamanhos, são espalhadas pela estrada transformando-as em um desafio a parte para os cicloturistas. Com toda a carga de equipamentos as bicicletas acabam ficando extremamente instáveis neste tipo de piso causando dores nos braços e ombros nos primeiros dias de viagem. Há ainda o fato de que muitos motoristas chilenos, em suas camionetes 4x4, passam a mais de 100 kms/h arremessando pedras para todos os lados, o que era uma preocupação constante.

No caminho para a cidade de Cunco tivemos nosso primeiro espetáculo, o vulcão Llaima com seus 3125 metros, fez com que ficássemos estáticos observando este mistério incrível da natureza. Passando a cidade de Cunco apanhamos uma pequena estrada de rípio que nos levou ao Lago Colico. Acampamos a beira do Lago, em uma área de camping privado. Saindo do Lago Colico continuamos nossa cicloviagem com destino a Villarrica, fazendo um camping selvagem na localidade de Pedregoso, e chegando em Villarrica no dia seguinte. O lago e o vulcão Villarrica nos fazem meditar muito sobre a vida, tamanha a beleza de ambos, as cores, a natureza em harmonia, uma paisagem para não esquecer jamais. A cidade de Villarrica não acompanha a beleza do lugar, pois é um pouco agitada. Aproveitamos para descarregar nossas imagens (fotos e vídeos) em um cyber café da cidade, nosso destino agora era Pucon. A estrada de Villarrica a Pucon é uma das mais lindas da região, pois os 25 kms que separam as duas cidades são percorridos sob a vigilância do vulcão Villarrica, que parece nos observar. A pequena Pucon está localizada literalmente aos pés do Villarrica, é uma cidade charmosa, completamente lotada de turistas, com muitas agências de aventuras onde você pode contratar pacotes diários para mountain bike, rafting, trekking e muitos esportes de aventura. Pucon entrou em nossa lista "The Best" dos lugares imperdíveis do sul chileno, no entanto no dia seguinte levantamos nossas "carpas" (barracas de camping em espanhol) e seguimos para conquistar mais um lago, o Caburgua. Após visitar o lago, seguindo as dicas do pessoal local, apanhamos uma pequena estrada de rípio para uma localidade denominada Ojos del Caburgua, onde montamos acampamento e aproveitamos para fazer trecking costeando o rio que corta o camping. Mata nativa, quedas d'água maravilhosas e um rio azul e transparente era o nosso visual durante a caminhada. Simplesmente inesquecível !

Hora de seguir viagem, o caminho agora nos levaria ao Parque Nacional Villarrica. O início do trajeto neste dia era pavimentado, porém alguns quilômetros depois já estávamos em uma estradinha de rípio seguindo para Termas de Palguín, e então a pequena estradinha ficou ainda menor e uma placa anunciava "Sr Visitante, El camino esta en muy mal estado, no continuar hacia Coñaripe" (Coñaripe é uma pequena cidade, as margens do Lago Calafquen), e esta informação soou como adrenalina para nós. As subidas eram extremamente íngrimes e empurrar as bikes com seus quase 40 kgs, em uma estrada coberta de pedras soltas, foi realmente um presente pra nós, naquele final de dia montamos acampamento no meio do Parque. No dia seguinte concluimos a travessia do Parque e chegamos a pequena Coñaripe, mais um importante lago (o Calafquen) tinha sido conquistado. O Parque Nacional Villarrica foi eleito por nós o lugar mais lindo de toda a nossa cicloviagem pela região, no entanto é bom lembrar que o acesso deve ser feito apenas com veículos 4x4, ou se preferir, de bicicleta. Como chegamos cedo em Coñaripe, almoçamos e logo seguimos viagem com destino a Lican Ray, sempre margeando o Lago Calafquen. Montamos nosso acampamento em Lican Ray, nosso próximo lago agora era o Lago Panguipulli.

Chegamos a Panguipulli, pernoitamos e no dia seguinte nosso destino era Los Lagos. Antes porém visitamos o Lago Riñihue, com suas águas verdes transparentes. Neste ponto nossa aventura tinha um pequeno desvio, que nos levaria a famosa Valdívia e também a Niebla, uma praia do Pacífico. O trajeto para Valdívia era todo pavimentado, e como tínhamos duas opções de caminho optamos pelo que nos levaria através da pequena cidade de Máfil. Valdívia é uma cidade viva, fundada em 1552, e com 127 mil habitantes, possui prédios exeburantes com arquitetura alemã do início do século XX, porto de turismo com seus barcos de passeios, museo histórico e antropológico, a catedral, o mercado municipal (onde jantamos salmão a R$ 7,00 o prato) e uma série de lugares imperdíveis. Aproveitamos a oportunidade para seguir 15 kms adiante e visitar a praia de Niebla, no Pacífico. Foi difícil deixar a cidade, pois ela é muito acolhedora, no entanto precisávamos retornar a região dos lagos e o nosso destino agora era o Lago Ranco, um dos maiores lagos da região. Para tal percorremos nossa maior quilometragem em um único dia, foram 140 kms até a cidade de Lago Ranco, as margens do lago de mesmo nome. Das margens do lago é possível visualizar a Cordilheira dos Andes, distante mais ou menos 100 kms do local. Seguindo viagem rumo ao sul nosso próximo destino foi a cidade de Osorno, onde aproveitamos para concertar uma das bicicletas que estava com a roda traseira danificada, e no dia seguinte continuar viagem agora com destino a Entre Lagos e Las Cascadas. Era domingo, chegamos em Entre Lagos próximo do meio dia e fomos fazer nosso almoço as margens do Lago Puyehue. A tarde seguimos nosso trajeto agora visando alcançar o Lago Rupanco, e depois de conquista-lo continuamos o pedal até a pequena localidade de Las Cascadas, já nas margens do grande Lago Llanquihue. Em apenas um dia de pedal conquistamos três lagos: Puyehue, Rupanco e Llanquihue.

Conquistando o vulcão Osorno

Em Las Cascadas optamos por um dia de descanso, pois já estávamos a 14 dias pedalando sem nenhum dia de folga. Justo neste dia ocorreram algumas pancadas de chuvas, então aproveitamos bem a folga para conhecer o lugar, limpar e lubrificar a transmissão das bicicletas, colocar os diários de bordo em dia e relaxar. Neste mesmo dia fomos visitar o centro de informações turísticas do local, onde encontramos um mountain biker que mudou nosso trajeto ao falar sobre o vulcão Osorno e os "senderos" (trilhas) difíceis para conquistá-lo. Nos preparamos com muita água e comida para escalar o Osorno, com seus 2652 metros, pois qualquer problema nas condições do tempo poderia nos prender na montanha por alguns dias, então tivemos que pensar em tudo e carregar como nunca nossas bicicletas. O caminho era um desafio descomunal, composto basicamente de pedras vulcânicas, sem permissão de acesso para veículos automotores, e demarcado até o ponto mais alto da montanha, a aproximadamente 300 metros da cratera principal. São 23 kms subindo, dos quais 10 kms empurrando as bikes. Ao chegar lá em cima a visão é indescretível, você vê todo o Lago Todos Los Santos, o Cerro Tronador (na Argentina) coberto de neve, além de um vento forte e congelante. Ficamos poucos minutos curtindo o visual, fotografando e filmando, e tivemos que retomar o trajeto, era extremamente frio permanecer lá em cima. Como todo o caminho que sobe tem que descer, tinha chegado o momento de despencar montanha abaixo em um downhill extremamente perigoso, ainda mais com as bikes carregadas. Foram duas quedas durante a descida, todas sem nenhuma gravidade ou avaria para as bikes, concluindo o desafio com a chegada a localidade de Petrohue. Embora exaustos, estávamos felizes como nunca, a conquista do vulcão Osorno foi uma conquista memorável para nós.

Um novo dia, e agora estávamos pedalando para visitar os famosos Saltos del Rio Petrohue, dentro do Parque Nacional Vicente Perez Rosales. De lá seguimos em frente passando por Ensenada, Puerto Varas e concluindo o giro na cidade de Puerto Montt. Depois de tantos dias acampando optamos por ficar em um hostal. A gente nem lembrava mais como era dormir em camas, tomar um banho quente ou ligar a TV. Nosso projeto estava se encaminhando para seu final, nos restava agora conquistar La Isla Grande de Chiloé. Partimos de Puerto Montt pela Ruta 5 até a cidade de Pargua, onde apanhamos um barco para atravessar o Canal Chacao, no Pacífico. Mais 30 kms e chegamos a cidade de Ancud. A ilha é famosa pelas suas igrejas antigas, a sua cultura totalmente diferenciada do resto do país que resultou numa mescla hispano-mapuche em três séculos de isolamento, até a fundação de Puerto Montt em 1853. Nossa primeira parada na ilha foi na cidade de Ancud, onde pernoitamos e no dia seguinte seguimos para a capital da ilha, Castro. Chegamos no encerramento do 25o Festival Costumbrista Chilote, em Castro, e podemos ter o privilégio de conhecer bem de perto a cultura chilote, com sua culinária típica, artesanato, tradição no manejo da madeira e um povo com forte influência mapuche, talvez o mais mapuche território chileno.

Chegou o momento de voltar, tudo começa a passar vagarosamente pela nossa mente, cada caminho, montanhas, rios, lagos, florestas, vulcões... não existem palavras para descrever tamanha alegria, então percebemos que nossas vidas foram esvaziadas do cotidiano comum restando somente o mais importante: Deus, a família e os amigos. Deixo um pensamento, nascido em meu diário de bordo durante acampamento no Parque Nacional Villarrica: Pedalar nao é apenas equilibrar o corpo, é equilibrar a alma ! Nao é uma questao de força, é uma questao de espírito ! É ter fé e ousadia pra desafiar os ventos, escalar montanhas, E ter o prazer de compartilhar tudo isto com alguém muito especial: a bicicleta !